A Vizinhos em Lisboa participou no debate específico da Assembleia Municipal de Lisboa sobre o Contrato Climático Cidade de Lisboa 2030. Não levámos opiniões sobre o que o Contrato deveria ser. Levámos dados recolhidos rua a rua por moradores ao longo deste ano, em dois levantamentos de ciência cidadã, e quatro propostas que nos parecem caber na execução do Contrato.
Apresentação Google Slide: https://docs.google.com/presentation/d/1e0vjHuGwZEPJ2rp6F4t9FAeuaky-zhQ8sLYveEogwo8/edit?usp=sharing
Apresentação (com notas): https://youtu.be/n53MtIbWXDU?t=7729
Intervenção final: https://youtu.be/n53MtIbWXDU?t=12534
A Vizinhos em Lisboa participou no debate específico da Assembleia Municipal de Lisboa sobre o Contrato Climático Cidade de Lisboa 2030. Não levámos opiniões sobre o que o Contrato deveria ser. Levámos dados recolhidos rua a rua por moradores ao longo deste ano, em dois levantamentos de ciência cidadã, e quatro propostas que nos parecem caber na execução do Contrato.
Um Contrato ambicioso nas emissões, vago na sombra
O Contrato Climático é o plano de Lisboa para a Missão europeia «100 Cidades Climaticamente Neutras até 2030». Na mitigação, a ambição é clara: reduzir 80% das emissões face a 2002 e atingir a neutralidade em 2030, com cerca de 150 ações, mais de 600 compromissos e um investimento estimado em cerca de 8,1 mil milhões de euros.
Reconhecemos o valor deste esforço. Mas a vida de quem mora em Lisboa no verão não se mede em toneladas de CO₂. Mede-se no calor que se sente numa paragem de autocarro ou num banco de jardim.
Na adaptação ao calor, o Contrato dá passos certos: prevê densificar em 25% o arvoredo urbano, aplicar a regra 3-30-300 (três árvores visíveis de cada casa, 30% de coberto arbóreo em cada bairro, no máximo 300 metros até um espaço verde) e medir a área adicional de sombra e a redução da temperatura junto às árvores. O que não encontrámos foram os valores a atingir nem o ponto de partida desses indicadores. Os 30% de coberto arbóreo não estão escritos como meta, nem é indicado o coberto atual da cidade, estimado em cerca de 16,8%, quando a média da União Europeia ronda os 30%.
TemperaturasLx: 58,3 °C no asfalto num dia de junho
https://www.vizinhos.org/propostas/temperaturaslx-mapa-das-ilhas-de-calor-de-lisboa-relatrio-de-dados-campanha-pilotoEntre 12 e 17 de junho de 2026, voluntários da Vizinhos em Lisboa fizeram 245 medições em 108 locais de nove freguesias, com termómetros de infravermelhos. Medimos a temperatura das superfícies, aquilo que irradia calor para quem passa, e não a do ar.
Com o ar entre 21 °C e 27 °C, o asfalto ao sol chegou aos 58,3 °C na Avenida Almirante Reis, 31 graus acima da temperatura do ar. No mesmo momento, a água de um chafariz estava a 23 °C. Na Avenida Álvares Cabral, a média ao sol foi de 52,4 °C.
O lado bom destes números é que a solução também ficou medida. Um banco à sombra estava quase 16 graus mais fresco do que um banco ao sol, e a calçada à sombra cerca de 10 graus mais fresca do que ao sol. A sombra de uma árvore é a medida de adaptação ao calor com melhor relação entre custo e efeito que a cidade tem ao seu alcance.
Foi uma campanha piloto, feita com instrumentos não certificados e fora de qualquer onda de calor. Ainda assim, o padrão repete-se em todas as freguesias e em todos os materiais, e serve precisamente para identificar onde pedir vistorias técnicas. Num verão a sério, os valores serão mais altos.
CaldeirasLx: 760 locais onde falta uma árvore
O segundo levantamento perguntou aos moradores onde falta uma árvore. Entre julho e setembro de 2026 foram registados 760 locais, em 315 ruas e nas 24 freguesias: caldeiras vazias, tocos e árvores mortas. Destes, 147 são árvores mortas que continuam de pé, o que é antes de mais uma questão de segurança para peões e automóveis.
Cruzámos os registos com o inventário municipal do arvoredo, disponível em dados abertos, o que merece ser reconhecido. Mas só cerca de uma em cada cinco destas falhas consta desse inventário. E o próprio inventário já conta 4 671 posições sem árvore viva, 6,3% do total. Mais de metade dos casos registados esperam por uma árvore há um a três anos, e cerca de um em cada cinco há mais de três. Notámos ainda que 95% das posições identificadas estão a cargo das Juntas de Freguesia: esta é uma tarefa partilhada entre a Câmara e as Juntas.
O levantamento não é exaustivo. O número real de árvores em falta será maior.
As ruas mais quentes têm caldeiras à espera de árvore
Quando juntamos os dois levantamentos, o resultado é claro. Mais de metade dos locais sem árvore, 394, ficam nas nove freguesias onde medimos o calor. Na Avenida Almirante Reis, onde registámos os 58,3 °C, há seis locais sem árvore. Na Avenida Álvares Cabral, também.
Nestes locais a infraestrutura já existe: a caldeira está lá, o espaço foi pensado. Falta a árvore. Cada caldeira vazia é uma sombra que a cidade já planeou e perdeu. Repô-la é talvez a medida de adaptação mais rápida e mais barata que o Contrato Climático pode incluir.
Quatro propostas
Deixámos à consideração da Câmara e da Assembleia Municipal quatro compromissos de adaptação, medidos rua a rua:
1. Uma meta de coberto arbóreo escrita no Contrato, com linha de base e um indicador anual de não regressividade, em linha com a Lei de Bases do Clima (Lei n.º 59/2021), que já obriga a que a cobertura arbórea não diminua face ao inventário.
2. Um plano de replantação para a próxima época de plantação, em janeiro e fevereiro de 2027, com prioridade para as ruas que ultrapassaram os 45 °C à superfície e espécies autóctones de copa larga e folha caduca, que dão sombra no verão e deixam passar a luz no inverno.
3. A verificação das 147 árvores mortas de pé e a remoção dos tocos com as raízes, para que as caldeiras possam voltar a receber árvores.
4. Medir antes e depois de cada replantação, com o protocolo do TemperaturasLx, e apresentar o ganho real de sombra no balanço anual do Contrato à Assembleia Municipal.
A Vizinhos em Lisboa está disponível para fazer essas medições em conjunto com os serviços municipais e as Juntas.
Participação para além da consulta pública
Estes levantamentos mostram que a participação dos cidadãos pode ser mais do que um inquérito no início do processo. Os moradores podem medir, mapear e ajudar a verificar resultados, todos os anos. Propomos um ciclo simples: medir o calor nas ruas mais expostas, mapear as falhas no arvoredo, replantar na época certa pela ordem das ruas mais quentes e prestar contas no balanço anual. Todos os dados que recolhemos estão disponíveis, em formato aberto, para a Câmara e para as Juntas de Freguesia.
A neutralidade climática conta-se em toneladas. A adaptação conta-se em graus à sombra.