Moradores registaram 760 locais sem árvore em Lisboa, dos quais o inventário municipal só reconhece cerca de um quinto, embora já conte 4 671 posições sem árvores vivas. A Vizinhos em Lisboa propõe à CML e às Juntas um plano de replantação para janeiro e fevereiro de 2027, a verificação urgente das 147 árvores mortas de pé, a atualização do inventário e a prioridade às ruas mais quentes identificadas pelo TemperaturasLx.
Relatório sobre o levantamento cidadão CaldeirasLx, cruzado com o inventário municipal do arvoredo.
Dados
Google Maps Online:
https://www.google.com/maps/d/u/0/edit?mid=1BKV_WbBVs8D9WSdHewSItm3X5kb4Pw4&usp=sharing
Google Spreadsheet:
https://docs.google.com/spreadsheets/d/1RbUe5DLXFEYb-f9asscNm8CyV7d4Of__u9Dc0W5bZIQ/edit?usp=sharing
Sumário executivo
Os moradores registaram 760 locais onde falta uma árvore em Lisboa, nas 24 freguesias e em 315 ruas e jardins. O inventário municipal só conhece cerca de 1 em cada 5 destas falhas, embora o próprio inventário já conta 4 671 posições sem árvores vivas.
- O problema estende-se a toda a cidade, mas concentra-se em alguns eixos focais. 36 ruas reúnem 39% dos registos. A Alameda dos Oceanos (21), a Avenida General Roçadas (20) e a Rua Luciano Cordeiro (15) lideram esta lista.
- Há 147 árvores mortas ainda no local. Nos registos com tipo identificado, 35% são tocos, 30% caldeiras vazias e 30% árvores mortas. As árvores secas são também uma questão de segurança pública para peões e veículos e devem ser tratadas com prioridade sobre as restantes categorias.
- A espera é longa. Onde há dados (por experiência de moradores ou Google Street View), 53% dos casos têm de 1 a 3 anos e 21% mais de 3 anos. Muitas caldeiras já perderam duas ou mais épocas de plantação.
- O inventário está desatualizado. Em 26% dos locais o inventário ainda mostra uma árvore viva. Só 20% coincidem com posições já assinaladas como vazias, com cepo ou secas.
- O inventário da CML confirma a dimensão do problema. O próprio inventário municipal do arvoredo regista 2 895 caldeiras vazias, 1 190 cepos e 586 árvores secas (6,3% das posições). A Estrela (13,8%), o Beato (12,8%), Marvila (10,5%) e os Olivais (10,1%) têm as taxas mais altas da cidade.
- As Juntas mantêm a maioria. 95% das posições identificadas junto aos registos estão a cargo das Juntas de Freguesia. A resposta a este problema depende, assim, da coordenação entre a CML e as Juntas.
- Também falham árvores novas. Na Avenida Santos Dumont, 12 árvores plantadas há cerca de dois anos já morreram.
Propomos à CML um plano de replantação para janeiro e fevereiro de 2027, a verificação urgente das árvores mortas de pé, a atualização do inventário e a publicação anual de um balanço de abates e plantações (ver Propostas, no final deste estudo vLx).
O levantamento
Até 26 de setembro de 2026 foram registados 760 locais distintos, a partir de 762 marcadores no mapa colaborativo. A maior parte chegou até nós, via através do formulário que abrimos para efeito ou em várias “campanhas de campo”, entre julho e setembro de 2026: 128 respostas ao formulário de moradores, 188 registos de campo datados e 444 marcadores sem data.
Gráfico 1. Tipo de ocorrência, classificado a partir das descrições dos registos.
Dos 490 registos com tipo identificado, os tocos, as caldeiras vazias e as árvores mortas de pé têm pesos semelhantes. Os tocos impedem a replantação até serem arrancados; as árvores mortas podem cair e provocar danos materiais ou pessoais.
Em 171 registos os moradores indicaram há quanto tempo falta a árvore: 28 há menos de 1 ano, 90 entre 1 e 3 anos, 36 há mais de 3 anos e 17 dizem nunca ter visto ali uma árvore. Há casos anteriores a 2009, como na Rua Alfredo Duarte (Marvila) e no Jardim Fernando Pessa (Areeiro).
Onde se concentra
O Areeiro tem mais registos (99) e a maior densidade: 50,7 por cada 1000 árvores vivas, contra 10,9 na média da cidade. O número de registos reflete também onde houve mais voluntários; por isso o Gráfico 3 mostra o que o próprio inventário da CML regista em cada freguesia. Por essa distorção este estudo deve ser considerado como uma amostra representativa das árvores que os moradores e voluntários da vLx percepcionam como “estando em falta” não como um levantamento absoluto, completo e exaustivo: Se o fosse os números seriam certamente muito superiores aos aqui apurados.
Gráfico 2. Registos cidadãos por 1000 árvores vivas do inventário, por freguesia.
Gráfico 3. Caldeiras vazias, com cepo ou com árvore seca, em % das posições do inventário da CML, por freguesia.
Freguesia | Locais registados | Por 1000 árvores vivas | Árvores vivas no inventário | Sem árvore viva no inventário (%) |
Areeiro | 99 | 50,7 | 1 954 | 6,5 |
Alvalade | 76 | 17,3 | 4 393 | 4,9 |
Avenidas Novas | 71 | 12,5 | 5 684 | 3,2 |
Marvila | 71 | 19,1 | 3 716 | 10,5 |
Arroios | 61 | 22,6 | 2 696 | 4,3 |
Lumiar | 55 | 8,6 | 6 397 | 6,6 |
Parque das Nações | 48 | 6,1 | 7 849 | 4,9 |
Penha de França | 47 | 18,8 | 2 496 | 7,6 |
Olivais | 33 | 11,8 | 2 807 | 10,1 |
Santo António | 31 | 14,1 | 2 201 | 4,0 |
Santa Clara | 23 | 9,1 | 2 540 | 7,7 |
Estrela | 20 | 6,8 | 2 943 | 13,8 |
Belém | 19 | 4,4 | 4 321 | 4,1 |
Misericórdia | 14 | 15,0 | 934 | 7,2 |
Santa Maria Maior | 14 | 12,7 | 1 104 | 8,3 |
Alcântara | 12 | 6,6 | 1 820 | 5,3 |
Campolide | 12 | 8,0 | 1 509 | 5,2 |
São Domingos de Benfica | 11 | 3,7 | 2 944 | 5,7 |
São Vicente | 11 | 12,6 | 871 | 3,2 |
Campo de Ourique | 8 | 7,0 | 1 144 | 5,1 |
Carnide | 8 | 3,0 | 2 708 | 7,8 |
Benfica | 7 | 1,5 | 4 638 | 3,8 |
Ajuda | 5 | 2,9 | 1 720 | 5,2 |
Beato | 4 | 6,2 | 645 | 12,8 |
Lisboa | 760 | 10,9 | 70 034 | 6,3 |
Os registos agrupam-se em alinhamentos: 36 ruas têm 5 ou mais registos e somam 300 locais. As que têm mais são a Alameda dos Oceanos (21, Parque das Nações), a Avenida General Roçadas (20, Penha de França e São Vicente), a Rua Luciano Cordeiro (15, Santo António), a Alameda D. Afonso Henriques (14), a Rua Fernando Palha (13, Marvila), a Avenida Santos Dumont (12, Avenidas Novas) e o espaço do INATEL em Alvalade (12).
O que diz o inventário municipal
O inventário do arvoredo da CML (80 320 posições, dados abertos, atualização bimestral) só reconhece 150 dos 760 locais como falhas. Para cada registo procurámos a posição inventariada mais próxima, com tolerância de 8 m.
Gráfico 4. Estado, no inventário da CML, da posição mais próxima de cada local registado (até 8 m).
Os 415 locais sem posição próxima podem resultar da imprecisão dos marcadores ou de caldeiras que nunca entraram no inventário... Com tolerância de 15 m, os locais já assinalados sobem para 283.
Mesmo sem o levantamento, o inventário regista 4 671 posições sem árvore viva: 2 895 caldeiras vazias, 1 190 cepos e 586 árvores secas. Somam-se 1 512 posições eliminadas e 556 caldeiras pavimentadas, isto é, lugares de árvores que deixaram de existir. Estas falhas estão sobretudo na via pública (2 814) e em espaços verdes (1 214), mas também em cemitérios (284) e escolas (261).
A manutenção está sobretudo nas Juntas de Freguesia. Das posições inventariadas a menos de 15 m dos registos, 460 são de Junta e 25 da CML. No inventário completo, 3 241 das falhas (69%) estão em áreas de Junta e 1 053 (23%) em áreas da CML.
Espécies, plantações falhadas e árvores notáveis
No inventário, os choupos, a cerejeira e o cipreste são as espécies com mais cepos e árvores secas. O lódão, a espécie mais plantada (10 118 posições), fica abaixo de 1%.
Espécie | Posições no inventário | Com cepo ou árvore seca | % |
Choupo-negro piramidal (Populus nigra var. italica) | 533 | 58 | 10,9 |
Choupo-branco (Populus alba) | 635 | 61 | 9,6 |
Cerejeira (Prunus avium) | 382 | 35 | 9,2 |
Cipreste (Cupressus sempervirens) | 1 926 | 170 | 8,8 |
Choupo-negro (Populus nigra) | 879 | 67 | 7,6 |
Só espécies com 300 ou mais posições; exclui caldeiras vazias, onde a espécie registada é a anterior ou a prevista.
Há plantações recentes que não vingaram. Na Avenida Santos Dumont os moradores contaram 12 árvores mortas, plantadas há cerca de dois anos. Houve casos semelhantes na Rua Capitão Ramires, junto ao Campo Pequeno, e na Rua Pedro José Pezerat, em Marvila. Tudo indica falta de rega ou acompanhamento no período de pega...
Sete registos referem árvores notáveis ou classificadas perdidas:
- Largo do Barão de Quintela (Misericórdia): duas tamareiras classificadas desaparecidas por volta de 2014 e uma tipuana classificada abatida.
- Campo dos Mártires da Pátria (Arroios): teixo de interesse público, com cerca de 123 anos, morto em 2026 segundo o registo.
- Palácio da Independência (Santa Maria Maior): pinheiro-manso com mais de cem anos, abatido.
- Avenida dos Estados Unidos da América, 14 (Alvalade): bela-sombra.
- Alameda D. Afonso Henriques (Areeiro): palmeira notável pelo local.
Enquadramento legal
A lei e o regulamento municipal já preveem a reposição das árvores abatidas e um inventário atualizado. Os artigos abaixo foram confirmados nos textos oficiais.
Norma | O que prevê |
Lei n.º 59/2021, art. 17.º, n.º 3 | Em caso de abate, é obrigatória a reposição de arvoredo que garanta a duplicação do sequestro de CO2, de preferência com espécies nativas, num raio até 10 km |
Lei n.º 59/2021, art. 19.º | Não regressividade: o coberto arbóreo não pode ficar abaixo do registado no inventário e deve aumentar |
Lei n.º 59/2021, art. 12.º | Inventário em dados abertos, numa plataforma onde os cidadãos podem denunciar ocorrências |
Lei n.º 59/2021, art. 16.º, n.º 5 | Monitorização contínua, com relatórios aprovados pela Assembleia Municipal |
Regulamento Municipal do Arvoredo de Lisboa (Aviso n.º 14465/2017), art. 5.º | A CML gere o arvoredo dos espaços estruturantes; as Juntas, o das restantes áreas, ao abrigo da alínea a) do art. 12.º da Lei n.º 56/2012 |
Regulamento Municipal do Arvoredo, art. 22.º | Registo georreferenciado mantido pela CML e atualizado pelas entidades gestoras |
Regulamento Municipal do Arvoredo, Anexo I, ponto 1.1 | Plantações em janeiro e fevereiro; abril e maio para jacarandá e tipuana |
Manual do Espaço Público da CML, 6.7 e 6.8 | Abate com desenraizamento obrigatório; caldeiras com área permeável mínima e protegidas contra pisoteio |
O Regulamento Municipal é de 2017, anterior à Lei n.º 59/2021, cujo art. 8.º previa regulamentos municipais no prazo de um ano. Não confirmámos se Lisboa já o adaptou...
Método, limites e fontes
O levantamento não é exaustivo: mostra onde os moradores reportam a falta de uma árvore, e o número real de árvores em falta será certamente muito superior. Cada marcador conta como um local, mesmo quando a descrição refere várias caldeiras: isto também leva a uma subavaliação da quantidade de árvores em falta na cidade de Lisboa.
- Dados: mapa colaborativo «Caldeiras à Espera e Árvores Perdidas» (ver acima), exportado a 26/09/2026; 762 marcadores, 2 duplicados removidos.
- Freguesias: atribuídas pelos limites oficiais da CML. Nos registos de formulário coincidem com a freguesia indicada pelo morador em 105 de 110 casos; as diferenças são ruas de fronteira.
- Tipo e antiguidade: classificados a partir do texto de cada registo; 270 registos não têm descrição suficiente.
- Cruzamento: posição do inventário mais próxima, a 8 m para o estado e a 15 m para a entidade gestora.
Fontes:
https://dados.cm-lisboa.pt/dataset/arvoredo; https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/59-2021-169780050; https://www.lisboa.pt/fileadmin/info_administrativa/normativas/regulamentos/ambiente/Regulamento_Municipal_do_Arvoredo_de_Lisboa.pdf e
Manual do Espaço Público da CML, cap. 6.
Propostas à CML
Propomos nove medidas, a desenvolver pela CML em articulação com as Juntas de Freguesia, ordenadas por urgência.
- Verificar as árvores mortas de pé nos próximos 60 dias. Começar pelas 147 assinaladas neste levantamento e pelas 586 árvores secas do inventário. Quando o abate for necessário, deixar a substituição já programada.
- Aprovar um plano de replantação para janeiro e fevereiro de 2027. Primeira fase: os 36 eixos com 5 ou mais registos (300 locais) e as quatro freguesias com mais de 10% de posições sem árvores (Estrela, Beato, Marvila e Olivais). Jacarandás e tipuanas em abril e maio, como prevê o Regulamento.
- Fixar uma meta pública. Por exemplo, reduzir para metade, até ao fim de 2028, as 4 671 posições sem árvore viva, com o progresso publicado por freguesia.
- Arrancar os tocos com desenraizamento. Criar um programa anual de remoção de cepos, com reposição de terra, para que cada caldeira fique pronta a receber árvores na época seguinte.
- Garantir a pega das árvores novas. Assegurar rega nos dois primeiros verões e incluir nos contratos de plantação a substituição das árvores que não vingarem. Substituir desde já as 12 árvores mortas da Avenida Santos Dumont.
- Atualizar o inventário. Corrigir os 195 locais onde ainda aparece uma árvore viva e verificar os 415 sem posição próxima. Acrescentar a data do abate e a data prevista de replantação, e permitir que os cidadãos reportem falhas na própria plataforma, como prevê o art. 12.º da Lei n.º 59/2021.
- Publicar um balanço anual de abates e plantações. Por freguesia e por entidade gestora, indicando como foi aplicada a reposição prevista no art. 17.º, n.º 3, da Lei n.º 59/2021, e apresentá-lo à Assembleia Municipal (art. 16.º, n.º 5).
- Rever as espécies e as caldeiras. Ponderar alternativas aos choupos e ciprestes em arruamento. Nas caldeiras entre lugares de estacionamento, aplicar grelhas ou rebordos contra o pisoteio. Avaliar a reabertura das 556 caldeiras pavimentadas onde o passeio o permita.
- Proteger e repor as árvores classificadas. Em articulação com o ICNF, avaliar o teixo do Campo dos Mártires da Pátria e replantar no Largo do Barão de Quintela.
- Dar prioridade à replantação onde o calor medido é maior, ligando o CaldeirasLx ao TemperaturasLx (https://www.vizinhos.org/propostas/temperaturaslx-mapa-das-ilhas-de-calor-de-lisboa-relatrio-de-dados-campanha-piloto) Na campanha TemperaturasLx (12 a 17 de junho de 2026, 245 medições em 108 locais de 9 freguesias), medimos a temperatura da superfície do solo com termómetro de infravermelhos. O ar estava entre 21 e 27 °C. O asfalto ao sol chegou aos 58,3 °C na Avenida Almirante Reis, e a Avenida Álvares Cabral teve uma média de 52,4 °C ao sol. À sombra de uma árvore com copa adequada, a calçada ficou cerca de 10 °C mais fresca, e um banco à sombra estava quase 16 °C abaixo de um banco ao sol. Cada caldeira vazia é uma sombra que a cidade já planeou e deixou de ter.
As duas bases de dados cruzam-se: 394 dos 760 locais do CaldeirasLx (52%) ficam nas 9 freguesias medidas pelo TemperaturasLx. A Avenida Almirante Reis, onde se registou o máximo de 58,3 °C, tem 6 locais sem árvore neste levantamento; a Avenida Álvares Cabral tem 2.
Assim sendo propomos à CML que:
- use o mapa do TemperaturasLx (https://www.vizinhos.org/propostas/temperaturaslx-mapa-das-ilhas-de-calor-de-lisboa-relatrio-de-dados-campanha-piloto) como critério de prioridade no plano de replantação, começando pelas caldeiras vazias e pelos tocos situados nas ruas que ultrapassaram os 45 °C à superfície;
- privilegie aí espécies de copa larga e folha caduca, adequadas à largura do passeio segundo o Manual do Espaço Público, que deem sombra no verão sem retirar luz no inverno;
- acompanhe a temperatura do solo antes e depois de cada replantação nesses locais, com o protocolo do TemperaturasLx, para medir o ganho real de sombra e apresentar os resultados no balanço anual à Assembleia Municipal.
Assim, cada árvore reposta passa a ser também uma medida de adaptação ao calor, com efeito medido rua a rua, e não apenas o cumprimento da reposição prevista na Lei n.º 59/2021.
A Vizinhos em Lisboa disponibiliza os dados do levantamento em formato aberto e propõe uma reunião técnica com os serviços da Estrutura Verde e as Juntas para acompanhar estas medidas.
Email a enviar à CML:Subject: CaldeirasLx: relatório sobre caldeiras vazias, tocos e árvores mortas em Lisboa e propostas de replantação
Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,
C/c: Exmos. Senhores Presidentes das Juntas de Freguesia de Lisboa
A Vizinhos em Lisboa – Associação de Moradores vem remeter a V. Exa. o relatório CaldeirasLx, resultado de um levantamento cidadão sobre caldeiras vazias, tocos e árvores mortas no espaço público da cidade, cruzado com o inventário municipal do arvoredo que a Câmara disponibiliza em dados abertos.
Entre julho e setembro de 2026, moradores e voluntários da associação registaram 760 locais onde falta uma árvore, em 315 ruas e jardins e nas 24 freguesias de Lisboa. Nos registos em que foi possível identificar o tipo, cerca de 35% são tocos, 30% caldeiras vazias e 30% árvores mortas que se mantêm de pé, num total de 147. Onde os moradores indicaram há quanto tempo falta a árvore, mais de metade dos casos tem entre um e três anos e cerca de um quinto mais de três anos, pelo que muitas caldeiras já perderam duas ou mais épocas de plantação. Os registos concentram-se em alinhamentos: 36 ruas reúnem 39% dos locais, com destaque para a Alameda dos Oceanos, a Avenida General Roçadas e a Rua Luciano Cordeiro. O levantamento não é exaustivo, pelo que o número real de árvores em falta será certamente superior.
O cruzamento com o inventário municipal mostra que apenas cerca de 20% destes locais estão já assinalados como falhas e que em 26% o inventário ainda indica uma árvore viva. O próprio inventário da CML regista 4 671 posições sem árvore viva (2 895 caldeiras vazias, 1 190 cepos e 586 árvores secas, ou 6,3% das posições), com as taxas mais altas na Estrela, no Beato, em Marvila e nos Olivais, a que acrescem 1 512 posições eliminadas e 556 caldeiras pavimentadas. Cerca de 95% das posições identificadas junto aos registos estão a cargo das Juntas de Freguesia, razão pela qual lhes damos igualmente conhecimento.
Este trabalho enquadra-se na Lei n.º 59/2021, de 18 de agosto, que prevê a reposição de arvoredo em caso de abate (art. 17.º, n.º 3) e a não regressividade do coberto arbóreo face ao inventário (art. 19.º), e no Regulamento Municipal do Arvoredo de Lisboa, que reparte a gestão entre a Câmara e as Juntas (art. 5.º), atribui à Câmara o registo georreferenciado do arvoredo (art. 22.º) e fixa janeiro e fevereiro como época de plantação (Anexo I, ponto 1.1).
Nesse sentido, e em articulação com as Juntas de Freguesia, propomos à Câmara Municipal que pondere as seguintes medidas. Em primeiro lugar, a verificação, nos próximos 60 dias, das árvores mortas que se mantêm de pé, por razões de segurança, deixando programada a sua substituição. Em segundo lugar, a aprovação de um plano de replantação para janeiro e fevereiro de 2027, com prioridade para os 36 eixos com mais registos e para as freguesias com mais de 10% de posições sem árvore, acompanhado de uma meta pública, por exemplo reduzir para metade, até ao fim de 2028, as posições sem árvore viva. Propomos ainda um programa anual de remoção de tocos com desenraizamento, a garantia de rega das árvores novas nos dois primeiros verões, com substituição das que não vingarem (como as 12 da Avenida Santos Dumont), a atualização do inventário nos locais identificados e a publicação de um balanço anual de abates e plantações, a apresentar à Assembleia Municipal. Sugerimos também a revisão das espécies com maior mortalidade em arruamento, a proteção das caldeiras junto ao estacionamento, a avaliação da reabertura de caldeiras pavimentadas e, em articulação com o ICNF, a reposição das árvores classificadas perdidas.
Por fim, propomos que a replantação dê prioridade às ruas onde o calor medido é maior, ligando este levantamento ao projeto TemperaturasLx da associação. Na campanha piloto de junho de 2026, com o ar entre 21 e 27 °C, o asfalto ao sol chegou aos 58,3 °C na Avenida Almirante Reis, enquanto à sombra de uma árvore com copa adequada a calçada ficou cerca de 10 °C mais fresca. Metade dos locais do CaldeirasLx fica nas nove freguesias então medidas. Sugerimos, por isso, que o mapa do TemperaturasLx sirva de critério de prioridade, que se privilegiem aí espécies de copa larga e folha caduca e que a temperatura do solo seja medida antes e depois de cada replantação, para que cada árvore reposta seja também uma medida de adaptação ao calor com efeito comprovado.
Segue em anexo o relatório completo. Os dados estão disponíveis em formato aberto no mapa colaborativo (https://www.google.com/maps/d/u/0/edit?mid=1BKV_WbBVs8D9WSdHewSItm3X5kb4Pw4&usp=sharing) e na folha de cálculo (https://docs.google.com/spreadsheets/d/1RbUe5DLXFEYb-f9asscNm8CyV7d4Of__u9Dc0W5bZIQ/edit?usp=sharing), e o relatório do TemperaturasLx pode ser consultado em https://www.vizinhos.org/propostas/temperaturaslx-mapa-das-ilhas-de-calor-de-lisboa-relatrio-de-dados-campanha-piloto.
A Vizinhos em Lisboa manifesta total disponibilidade para uma reunião técnica com os serviços da Estrutura Verde e com as Juntas de Freguesia, bem como para continuar a colaborar na atualização deste levantamento.