Entre 12 e 17 de junho de 2026, a campanha piloto do TemperaturasLx mediu temperaturas de superfície em 9 freguesias de Lisboa e encontrou máximos de 58,3°C em pavimento betuminoso ao sol - até 20°C acima da calçada portuguesa à sombra -, confirmando a arborização, o sombreamento e os pontos de água como as intervenções prioritárias a propor às Juntas de Freguesia e à CML.
Relatório de Dados: Campanha Piloto, Junho de 2026
12–17 de junho de 2026 | 9 freguesias | 245 registos | 108 locais
Vizinhos em Lisboa – Associação de Moradores
1. Sumário executivo
O TemperaturasLx é um projeto de ciência cidadã coordenado pela Vizinhos em Lisboa – Associação de Moradores com o objetivo de medir a temperatura das superfícies urbanas em Lisboa, identificar os pontos de calor mais críticos e propor intervenções concretas às Juntas de Freguesia e à Câmara Municipal.
Este relatório apresenta os resultados da campanha piloto de medição realizada entre 12 e 17 de junho de 2026, nos momentos em que a temperatura atmosférica em Lisboa rondava os 21–27°C. Em dias mais quentes — o que no contexto atual das alterações climáticas é cada vez mais frequente — os valores de superfície aqui registados serão ainda superiores.
Dados em:
https://docs.google.com/spreadsheets/d/1hc1t4JKk8DOQ6b9b_Xnisnhyj6J2dC_TVfXq6nUkCg0/edit?gid=0#gid=0
Resultados principais
Condição | Temp. superfície | Relação com temperatura do ar |
Betuminoso ao sol (tarde) | ≈ 50–58°C | +23 a +31°C acima do ar |
Calçada portuguesa ao sol | ≈ 41°C | +14°C acima do ar |
Calçada portuguesa à sombra | ≈ 30°C | +3°C acima do ar |
Relvado ao sol | ≈ 34°C | +7°C acima do ar |
Relvado à sombra | ≈ 26°C | -1°C abaixo do ar |
Água (chafariz/lago) | ≈ 23°C | -4°C abaixo do ar |
A conclusão mais imediata é que as superfícies betuminosas ao sol registaram temperaturas até 58,3°C — trinta e um graus acima da temperatura do ar — enquanto a água de um chafariz, no mesmo momento, estava a 23°C. A diferença entre um banco ao sol e um banco à sombra é de quase 16°C. Estes dados demonstram que a sombra, mais do que qualquer outro fator, é o instrumento de política pública com maior retorno imediato em termos de saúde urbana.
2. Metodologia
2.1 Equipamento e procedimento de recolha
As medições foram realizadas com termómetro de infravermelhos portátil, que mede a temperatura de radiação de superfícies sólidas e líquidas — não a temperatura do ar. Para cada local, o observador apontou o termómetro perpendicularmente à superfície, a uma distância de aproximadamente 30 cm, e registou o valor estabilizado no visor.
Cada registo inclui: data, hora, endereço, freguesia, temperatura atmosférica de referência (obtida em meteo.pt no momento da medição), temperatura de superfície e descrição da condição (tipo de material, exposição solar ou sombra, contexto imediato).
2.2 Nota sobre os dados
Os equipamentos utilizados são não certificados e de uso indicativo. Os valores obtidos são adequados para identificar padrões e tendências, fundamentar pedidos de vistoria técnica e orientar propostas de intervenção, mas não devem ser usados como evidência científica para fins regulatórios ou de saúde pública sem validação com equipamento calibrado.
2.3 Cobertura
A campanha piloto cobriu 9 das 24 freguesias de Lisboa: Alvalade, Areeiro, Arroios, Avenidas Novas, Campo de Ourique, Estrela, Misericórdia, Santa Maria Maior e Santo António. A extensão a todas as 24 freguesias está prevista para a campanha de verão de 2026, com o envolvimento de voluntários, escolas e coletividades locais.
3. Resultados por freguesia
A tabela seguinte apresenta a temperatura média, máxima, média ao sol e média à sombra registadas em cada freguesia. As freguesias de Santo António, Misericórdia e Campo de Ourique apresentam as médias mais elevadas, superiores a 40°C. Os valores de Santo António devem ser lidos com cautela dado o reduzido número de registos.
Freguesia | N | Média geral | Máximo | Média ao sol | Média à sombra |
Santo António | 3 | 46,0°C | 52,7°C | 48,9°C | 40,3°C |
Misericórdia | 12 | 40,5°C | 49,1°C | 43,2°C | 35,6°C |
Campo de Ourique | 11 | 40,3°C | 55,8°C | 48,1°C | 30,9°C |
Areeiro | 42 | 38,4°C | 58,3°C | 44,6°C | 29,1°C |
Alvalade | 50 | 37,4°C | 55,1°C | 40,8°C | 32,9°C |
Arroios | 59 | 36,8°C | 57,6°C | 43,5°C | 28,4°C |
Avenidas Novas | 13 | 36,7°C | 44,2°C | 40,9°C | 29,1°C |
Estrela | 42 | 36,0°C | 53,1°C | 41,9°C | 30,7°C |
Santa Maria Maior | 13 | 35,3°C | 47,7°C | 37,9°C | 28,4°C |
O local com a temperatura média mais elevada de toda a amostra é a Avenida Álvares Cabral (Campo de Ourique), com 52,4°C ao sol. O máximo absoluto foi registado na Avenida Almirante Reis (Areeiro) com 58,3°C, sobre pavimento betuminoso em via de trânsito.
4. Resultados por tipo de superfície
A tabela seguinte compara o comportamento térmico de cada tipo de superfície ao sol e à sombra. Este é o dado mais diretamente útil para políticas de espaço público: permite quantificar o benefício de cada tipo de intervenção.
Tipo de superfície | Média sol | Máx. sol | N sol | Média sombra | Máx. sombra | N sombra |
Betuminoso | 49,9°C | 58,3°C | 24 | —* | —* | 1 |
Placa de agregado | 48,1°C | 53,4°C | 8 | 33,1°C | 37,2°C | 3 |
Blocos granito/basalto | 42,0°C | 51,2°C | 9 | 34,0°C | 42,1°C | 6 |
Calçada portuguesa | 40,6°C | 50,3°C | 64 | 30,4°C | 41,2°C | 54 |
Relvado/Relva | 34,2°C | 49,1°C | 14 | 25,5°C | 34,3°C | 11 |
Vegetação/Terra | 30,9°C | 30,9°C | 1 | 25,4°C | 28,3°C | 5 |
Banco público | 42,7°C | 44,4°C | 2 | 26,8°C | 26,8°C | 1 |
Abrigo Carris | 41,6°C | 47,2°C | 3 | 33,2°C | 34,2°C | 2 |
- O betuminoso à sombra tem apenas 1 registo (39,1°C), pelo que a média não é representativa.
Leituras-chave desta tabela
- A calçada portuguesa à sombra está em média 10,2°C mais fria do que ao sol. Uma única árvore com copa adequada produz este efeito sem qualquer custo de manutenção de energia.
- O relvado à sombra regista temperaturas inferiores à temperatura do ar, comportando-se como um elemento ativo de arrefecimento por evapotranspiração.
- A diferença entre um banco ao sol e um banco à sombra é de 15,9°C — superior à diferença entre betuminoso ao sol e calçada ao sol. O sombreamento do mobiliário urbano é tão importante como o do pavimento.
- A água dos chafarizes e lagos regista temperaturas médias de 22,9°C, muito abaixo de qualquer superfície pavimentada. A manutenção e expansão dos bebedouros e pontos de água é uma medida de impacto imediato.
5. Locais mais críticos
A tabela seguinte identifica os locais com temperatura média de superfície mais elevada ao sol, entre os que têm pelo menos 3 registos. Estes locais constituem as primeiras prioridades de intervenção a propor às Juntas de Freguesia e à CML.
Local | Freguesia | Média ao sol | Máximo | N |
Avenida Álvares Cabral 41 | Campo de Ourique | 52,4°C | 55,8°C | 3 |
Avenida Manuel da Maia 48 | Areeiro | 46,0°C | 55,4°C | 4 |
Avenida de Roma 66B | Alvalade | 45,2°C | 50,2°C | 3 |
Alameda D. Afonso Henriques 74 | Arroios | 44,6°C | 52,4°C | 5 |
Entrecampos | Alvalade | 42,3°C | 43,4°C | 3 |
Rua Dom Duarte 1B | Santa Maria Maior | 40,0°C | 43,1°C | 3 |
Avenida da República 84A | Avenidas Novas | 39,8°C | 40,3°C | 3 |
Rua de Santo Amaro 66A | Estrela | 37,4°C | 53,1°C | 3 |
Martim Moniz | Santa Maria Maior | 36,9°C | 47,7°C | 7 |
Nota: Martim Moniz, com 7 registos e máximo de 47,7°C, representa o espaço com maior número de observações e portanto o padrão mais robusto. A combinação de amplas superfícies pavimentadas, ausência de arborização de copa e intensa utilização por pedestres e frequentadores torna-o um caso urgente de intervenção.
6. Propostas de intervenção
Com base nos dados recolhidos, a Vizinhos em Lisboa propõe as seguintes medidas, em ordem de impacto esperado e facilidade de implementação.
6.1 Arborização prioritária
Para cada local com temperatura média de superfície superior a 45°C ao sol (conforme identificado na secção 5), solicita-se às Juntas de Freguesia e à CML a elaboração, no prazo de 90 dias, de um estudo de viabilidade de plantação de espécies arbóreas de copa larga. O Manual do Espaço Público da CML prevê explicitamente a redução da ilha de calor como objetivo de desenho urbano.
6.2 Sombreamento imediato
Nos locais onde a plantação arbórea não seja viável no imediato, propõe-se a instalação de pérgolas ou tensostruturas de sombreamento nos pontos de permanência identificados (bancos, áreas de recreio, paragens de autocarros). O efeito de sombreamento sobre um banco público representa uma redução de 15,9°C — um resultado imediato e de custo acessível.
6.3 Bebedouros e pontos de água
A água dos chafarizes e lagos regista as temperaturas mais baixas de toda a amostra, confirmando o papel dos pontos de água como reguladores térmicos e elementos de bem-estar urbano. Solicita-se à CML e à EPAL:
- Que o programa de requalificação de 200 bebedouros anunciado pela EPAL utilize o Mapa de Ilhas de Calor do TemperaturasLx como critério de priorização geográfica.
- Que todos os bebedouros instalados incluam torneira de enchimento de garrafa, reduzindo o consumo de plástico descartável.
- Que as Juntas de Freguesia verifiquem o funcionamento de todos os bebedouros no início de cada período de calor e reportem avarias à EPAL em 48 horas.
6.4 Pavimentos e permeabilidade
Nas zonas identificadas como pontos de calor crítico, propõe-se a substituição progressiva de pavimentos betuminosos de cor escura por materiais de maior albedo ou por piso permeável com vegetação rasteira. A diferença entre betuminoso ao sol (49,9°C) e calçada portuguesa à sombra (30,4°C) é de quase 20 graus — uma intervenção de longa duração mas de impacto estrutural.
6.5 Plano de Ação Climática por Freguesia
A Vizinhos em Lisboa compromete-se a elaborar, para cada Junta de Freguesia participante, um documento de síntese com os cinco a dez pontos de intervenção prioritária, acompanhado de cartografia georeferenciada. Este documento será apresentado em reunião pública e formalmente entregue ao presidente de cada Junta e ao Gabinete do Presidente da CML, com pedido de resposta escrita sobre a calendarização das medidas.
7. Próximos passos
- Publicação do Mapa Interativo das Ilhas de Calor em Google Maps personalizado — julho de 2026.
- Extensão da campanha de medição às restantes 15 freguesias de Lisboa, com recrutamento de voluntários e escolas — agosto/setembro de 2026.
- Apresentação dos resultados em reuniões de assembleia de freguesia — setembro de 2026.
- Envio formal deste relatório a todas as Juntas de Freguesia abrangidas e ao Gabinete do Presidente da CML, com pedido de resposta sobre as medidas propostas.
- Articulação com a EPAL sobre a localização prioritária dos novos bebedouros.