A morte de uma mulher de 75 anos numa passadeira na Rua da Graça não pode ser tratada como um acidente isolado. Trata-se de mais um episódio de um problema estrutural de segurança rodoviária em Lisboa, particularmente grave em zonas históricas com elevada presença de peões, população envelhecida e tráfego de atravessamento.
No levantamento realizado no âmbito do projeto AtropelamentosLx (https://www.vizinhos.org/propostas/projecto-atropelamentoslx-da-vizinhos-em-lisboa), promovido pela Vizinhos em Lisboa, a própria Rua da Graça surge identificada como um dos locais críticos de atropelamento, incluindo em passadeiras sem semáforo, o que confirma que não se trata de uma ocorrência inesperada, mas de um risco conhecido e documentado.
Os dados mais recentes indicam que Lisboa continua a registar centenas de atropelamentos por ano, com tendência preocupante para o aumento da gravidade dos acidentes. Em 2025 foram registadas 518 vítimas em atropelamentos, incluindo sete mortos, o valor mais elevado do período analisado entre 2019 e 2025.
Quando uma pessoa morre numa passadeira, o problema raramente se limita ao comportamento individual do condutor ou do peão. O artigo 5.º do Código da Estrada estabelece que a entidade responsável pela via tem o dever de garantir condições de segurança adequadas para todos os utilizadores, e o Decreto-Regulamentar n.º 22-A/98, que aprova o Regulamento de Sinalização do Trânsito, determina que a sinalização e a organização da via devem ser ajustadas às características da via e aos seus utilizadores.
Em bairros históricos como a Graça, onde existem passeios estreitos, presença de elétrico, turismo intenso e população idosa, a gestão do tráfego não pode continuar a permitir velocidades incompatíveis com a segurança pedonal. A experiência de outras cidades europeias demonstra que a redução estrutural da velocidade, o redesenho das ruas e a prioridade efetiva ao peão são medidas que reduzem drasticamente a gravidade da sinistralidade.
Lisboa continua, porém, a aplicar sobretudo medidas superficiais, como pintura no pavimento ou sinalização, sem alterar a geometria das vias nem controlar verdadeiramente a velocidade automóvel. O resultado é previsível: as ruas mantêm condições que permitem conflitos graves entre veículos e peões.
A morte desta senhora na Rua da Graça deve ser encarada como um alerta claro de que o desenho urbano e a gestão do tráfego no centro histórico continuam a falhar na proteção dos utilizadores mais vulneráveis da via pública.
Email à Junta de Freguesia de São Vicente enviado a 05.03.2026:
Assunto: Segurança pedonal na Rua da Graça após atropelamento mortal
Exmo. Senhor Presidente da Junta de Freguesia de São Vicente,
Na sequência do atropelamento mortal ocorrido no dia 3 de março de 2026 na Rua da Graça, que vitimou uma senhora de 75 anos quando atravessava numa passadeira, venho expressar profunda preocupação com as condições de segurança pedonal nesta via e na envolvente do Largo da Graça.
Este episódio não surge isolado. No levantamento realizado pela iniciativa cívica AtropelamentosLx (https://www.vizinhos.org/propostas/projecto-atropelamentoslx-da-vizinhos-em-lisboa), promovida pela Vizinhos em Lisboa, a Rua da Graça já surge identificada como um dos locais críticos de atropelamento na cidade, designadamente em atravessamentos pedonais sem semaforização.
Importa recordar que o artigo 5.º do Código da Estrada estabelece que as entidades responsáveis pela gestão das vias públicas devem assegurar condições adequadas de segurança rodoviária, enquanto o Decreto-Regulamentar n.º 22-A/98, relativo ao Regulamento de Sinalização do Trânsito, determina que a sinalização e organização da via devem ser adaptadas às características do local e dos utilizadores.
A Rua da Graça apresenta características que aumentam o risco para os peões, designadamente passeios estreitos, tráfego de atravessamento significativo, circulação de elétrico e presença frequente de pessoas idosas e turistas. Estas condições exigem uma abordagem mais exigente de acalmia de tráfego e de proteção pedonal.
Nesse sentido, solicitamos que a Junta de Freguesia de São Vicente promova junto da Câmara Municipal de Lisboa e das entidades competentes a avaliação urgente das condições de segurança nesta rua, incluindo a análise do desenho das passadeiras existentes, da velocidade de circulação automóvel e das condições de visibilidade e iluminação.
Consideramos igualmente importante avaliar a introdução de medidas físicas de acalmia de tráfego, como passadeiras sobrelevadas, redução efetiva da velocidade e reforço da prioridade pedonal, em linha com as boas práticas europeias de segurança rodoviária urbana.
A segurança dos peões, particularmente de pessoas idosas ou com mobilidade reduzida, deve constituir uma prioridade inequívoca na gestão do espaço público do centro histórico de Lisboa.
Com os melhores cumprimentos,
Núcleo Vizinhos de São Vicente da Vizinhos em Lisboa