Hoje, a associação levou um grupo de vizinhos numa visita guiada à Tapada das Necessidades, percorrendo o palácio, os parterres, a mãe-d'água e o antigo ramal do Aqueduto, a Estufa Circular, os lagos e o arvoredo classificado, desfazendo lendas (como a suposta ligação de Manet ao jardim) e situando o estado actual da obra de recuperação, incluindo a incerteza sobre a recuperação da Tapada.
Reuniu-se hoje, junto ao Largo das Necessidades, o grupo de vizinhos que respondeu ao convite da nossa associação para uma travessia histórica do antigo Paço e Quinta Real das Necessidades. A sessão iniciou-se diante da fachada sul do Palácio, com uma breve apresentação do conjunto monumental — igreja, chafariz e obelisco, hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros — e o esclarecimento, sempre oportuno, de que o edifício nasceu de um voto de D. João V a Nossa Senhora das Necessidades, feito em 1742, após uma grave enfermidade de que o monarca se recuperou. Explicou-se ao grupo que a autoria da obra, popularmente associada a um único nome, é na realidade objecto de discussão entre historiadores, cabendo a Caetano Tomás de Sousa o acompanhamento mais continuado do estaleiro, ainda que o traçado inicial seja tradicionalmente ligado ao arquitecto italiano Giovanni Servandoni.
Da entrada, o percurso conduziu o grupo ao interior da Tapada, propriamente dita, onde se apresentou o essencial da sua classificação e enquadramento patrimonial antes de se avançar para a zona dos parterres, junto ao palácio. Ali se recordou a devoção continuada de D. João V, a doença de que padeceu e a promessa que deu origem ao conjunto, esclarecendo-se aos presentes — com a formalidade que o tema exige — que a célebre atribuição da tela Almoço na Relva, de Édouard Manet, a uma estadia do pintor neste jardim não tem qualquer fundamento documental.
Não existe registo de visita de Manet a Portugal, e a própria instituição que hoje guarda a obra, o Museu d'Orsay, remete a sua génese para modelos renascentistas — o Concerto Campestre e uma gravura de Marcantonio Raimondi sobre uma composição de Rafael.
Seguiu-se a paragem junto ao antigo palácio e parterres devocionais, onde se recordou a proximidade histórica com o Cais de Alcântara e a tradicional Festa do Espírito Santo, instituída pelos marítimos da Carreira da Índia, distinta da Festa do Azeite. O grupo caminhou depois até à mãe-d'água e mina, ponto de charneira do percurso: ali se explicou que a encosta, hoje árida e sem nascentes de caudal, foi durante séculos servida por um ramal do Aqueduto das Águas Livres — o chamado Ramal ou Galeria das Necessidades —, hoje soterrado até ao interior da cerca, obra atribuída a Manuel da Maia e que alimentava, por três ramais sucessivos, o chafariz e obelisco do largo, o Arco do Carvalhão e as Janelas Verdes, antes de o sistema ser cortado com a abertura da Avenida Infante Santo.
Na Estufa Circular, mandada erguer por D. Pedro V entre 1855 e 1861 para aclimatação de espécies exóticas trazidas de diversos continentes, recordou-se ao grupo o contexto europeu do gosto científico e do prestígio real associado a este tipo de construção, bem como a ligação pessoal do monarca à experiência botânica — sublinhando-se, com a devida sobriedade, o desfecho trágico do reinado, interrompido pela febre tifóide que vitimou o rei em 1861, com apenas vinte e quatro anos, depois de a doença ter já ceifado a rainha D. Estefânia e dois infantes.
A visita prosseguiu junto aos lagos, à cascata e à Casa do Regalo, antigo atelier de pintura de D. Carlos,. Explicaram-se ainda os nomes oficiais dos três lagos do conjunto, ligados à Palmeira, às Estrelícias e ao Duque de Lafões, corrigindo-se junto do grupo eventuais designações populares incorrectas.
No arvoredo notável, classificado pelo ICNF desde 1983, destacou-se sobretudo o exemplar de dragoeiro, com a sua seiva avermelhada popularmente chamada "sangue de dragão", e o raro teixo existente junto à estufa, um dos poucos exemplares desta espécie em Lisboa. Aproveitou-se o momento para recordar aos presentes o estado actual da Tapada e o processo de recuperação em curso: o plano de salvaguarda e gestão, aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal em 2024, e o financiamento de 19,26 milhões de euros aprovado pela Assembleia Municipal em fevereiro de 2025 para execução entre 2025 e 2028 pela Associação de Turismo de Lisboa — indicando-se, com a devida cautela, que em fevereiro de 2026 a Câmara propôs revogar essa transferência e assumir directamente a obra, processo cujo desfecho convém continuar a acompanhar.
A visita encerrou-se na zona alta, junto à mata e à antiga zona de moinho, próximo da saída norte, deixando-se um período de tempo dedicado a perguntas dispersas do público, tal como previsto no guião. Os vizinhos presentes manifestaram particular interesse pela desmontagem da lenda de Manet e pelo esclarecimento sobre o financiamento da obra de recuperação, confirmando o valor pedagógico de uma visita que soube conjugar rigor histórico com atenção ao estado presente deste património.