O percurso pedonal pelo Areeiro, com início na Praça de Londres, traça a memória histórica e urbana do bairro desde as suas origens rurais e quintas de pequena nobreza até à grande operação de urbanismo planeado do Estado Novo, passando pelos marcos arquitectónicos, comerciais e culturais que definiram a sua identidade ao longo do século XX
A Vizinhos em Lisboa, núcleo do Areeiro (Vizinhos do Areeiro) organizou recentemente uma caminhada pela História do Areeiro com vários fregueses e vizinhos.
O ponto de partida foi a Praça de Londres, nó organizador de toda a malha urbana do Areeiro. A praça foi desenhada em 1938 pelo arquitecto e urbanista João Guilherme Faria da Costa no âmbito do Plano do Bairro do Areeiro, que constituiu uma das operações de urbanismo planeado mais coerentes e ambiciosas executadas em Lisboa durante o Estado Novo. A sua actual denominação foi fixada pelo Edital municipal de 29 de Julho de 1948, inserindo-se numa deliberação mais ampla que atribuiu a diversas artérias e praças da zona designações cosmopolitas — Londres, Paris, Madrid, Rio de Janeiro —, numa tentativa deliberada de conferir projecção internacional à cidade. Antes desta data, o espaço era popularmente conhecido como Praça do México, por referência à Avenida do México que ali terminava. Moradores de então recordavam ainda a existência de um ribeiro com uma pequena ponte, que atravessavam para alcançar o Liceu Filipa de Lencastre; esse curso de água ainda corre no subsolo, conforme revelou um abatimento no jardim central ocorrido em Agosto de 2024.
No jardim central da praça detém-se o visitante junto à estátua de Guerra Junqueiro, escultura da autoria de Lagoa Henriques, inaugurada em 1968. Próximo desta encontram-se obras oferecidas pela centenária fábrica de faianças das Caldas da Rainha — fundada em 1884 por Raphael Bordallo Pinheiro —, designadamente o "Gato Assanhado", o banco revestido a azulejos Arte Nova e o caracol gigante, doados à freguesia em 2018 e ostentando o selo "Arte Bordallo", reservado a modelos concebidos pelo próprio Raphael Bordallo Pinheiro e pelo seu filho Manuel Gustavo. Encontra-se ainda no jardim "As Três Graças", escultura em mármore da autoria de Fernando Fernandes, inaugurada em 1973, removida durante a construção de um parque subterrâneo e recolocada no início de 2009.
Voltando o olhar para o perímetro da praça, o visitante identifica os quatro edifícios que estruturam a sua fisionomia: a Igreja de São João de Deus a Oeste, projectada por António Lino — sobrinho de Raul Lino — e inaugurada em 1952, com a paróquia a entrar em funcionamento a 8 de Março de 1953; a Torre de Cassiano Branco a Nordeste, um dos exemplos mais marcantes do neotradicionalismo lisboeta; a sede do então Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social a Noroeste, da autoria de Sérgio Andrade Gomes; e a Pastelaria Mexicana a Sudeste, remodelada entre 1961 e 1962 pelo arquitecto Jorge Ferreira Chaves, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1996, e que integra um painel de azulejos de Querubim Lapa e uma tapeçaria de Almada Negreiros. A Mexicana foi fundada a 28 de Dezembro de 1946 por quatro construtores civis naturais de Tomar, e o seu nome reflecte a antiga designação da praça adjacente.
Antes de entrar na Igreja de São João de Deus, importa notar que o edifício foi erguido no local onde outrora funcionava uma vacaria, e que incorporou parte do espólio da antiga Igreja do Socorro (construída em 1596 e demolida em 1949), incluindo alfaias litúrgicas, o arcaz da sacristia e duas lápides funerárias do século XVII — de Agostinho Franco de Mesquita (1645) e de D. Ana da Cunha (1650) —, que constituem provavelmente os dois testemunhos históricos mais antigos da actual freguesia do Areeiro.
Saindo da praça em direcção à Avenida Guerra Junqueiro, percorre-se um dos eixos comerciais mais característicos do bairro. Aqui encontram-se, entre outros estabelecimentos históricos, a Pastelaria Nectar, fundada em 1963, e outros espaços que compõem a densa memória de sociabilidade quotidiana desta avenida. A sul, na direcção da Alameda D. Afonso Henriques, o visitante confronta-se com a monumentalidade cívica do Plano Faria da Costa.
Subindo então a Avenida de Roma — cujo nome data de 27 de Dezembro de 1930 e foi inicialmente designada "Avenida n.º 19" antes da sua consagração definitiva — passa-se diante de algumas das obras mais significativas da arquitectura modernista lisboeta dos anos 1950 e 1960, nomeadamente o edifício da antiga Livraria Barata, fundada em 1957 como refúgio de publicações proibidas durante o regime e convertida, em Agosto de 2023, numa FNAC. Mais adiante encontra-se o edifício que albergou o Cinema Roma, inaugurado em 1957, e, por fim, a Piscina do Areeiro, projectada pelo arquitecto Alberto José Pessoa e inaugurada em 1966 na presença do então Presidente da República Américo Tomás — a primeira piscina coberta construída pela Câmara Municipal de Lisboa.
Retornando ao ponto de partida pela Praça de Londres, e dispondo de tempo, pode o visitante desviar-se até à Praça Pasteur, desenvolvida a partir de 1947 pelos arquitectos José Bastos, Licínio Cruz, Alberto Pessoa e Chorão Ramalho, com jardim paisagístico de Manuel Azevedo Coutinho; e aos vestígios da Quinta das Ameias ou "Casal Vistoso", nas imediações da Avenida Afonso Costa, onde ainda hoje são visíveis ameias e os restos de uma torre de uma antiga capela, testemunhos de uma quinta de pequena nobreza provavelmente dos séculos XVII ou XVIII que deu nome ao topónimo "Casal Vistoso".
Por fim, perto do apeadeiro do Areeiro, o percurso pode contemplar a evocação do Retiro "Perna de Pau", situado na antiga Quinta de Santo António ou da Frejoeira, adquirido em 1860 e que terá acolhido, entre os seus frequentadores, personalidades ligadas ao grupo dos Vencidos da Vida. O estabelecimento encerrou definitivamente por mandato judicial em data próxima de 1930.
