O Percurso 1 do projecto AzulejoLx levou um grupo de vizinhos por Alfama, transformando fachadas, chafarizes e becos num arquivo vivo de oito séculos de história, devoção e memória colectiva de Lisboa.
O percurso, com cerca de 1,2 km e duração aproximada de 120 minutos, arrancou no Largo das Portas do Sol e percorreu alguns dos pontos mais densos de memória azulejar e devocional de Alfama: o Miradouro de Santa Luzia, as Escadinhas dos Remédios, a Rua dos Remédios, o Largo de Santo Estêvão, a Calçadinha de São Miguel, o Largo das Alcaçarias e o Beco do Maquinez.
Desde a primeira paragem, o percurso colocou o azulejo não como decoração mas como documento. No Miradouro de Santa Luzia, os dois grandes painéis da Fábrica Viúva Lamego — o Terreiro do Paço antes do terramoto e a conquista de Lisboa de 1147 — mostraram como, num mesmo jardim, se pode ler oito séculos de cidade. Ali mesmo, um painel barroco do segundo quartel do século XVIII representa Santa Luzia, mártir de Diocleciano, cuja iconografia dos olhos numa salva explica o nome Lucia pela raiz latina lux.
Nas Escadinhas dos Remédios, um painel de 1757 — datado com precisão rara e visível — representa a Sagrada Família no regresso do Egipto. A data é um testemunho directo da intensificação devocional que se seguiu ao terramoto de 1755: o sismo não destruiu apenas edifícios, mobilizou também uma resposta espiritual que se fixou nas fachadas de Alfama em azulejo. Na Rua dos Remédios, um painel de 1749, anterior ao terramoto em seis anos, mostra São Marçal — protector contra incêndios — e Santo António, com a pomba do Espírito Santo no remate superior, sinal de uma das confrarias mais antigas e ricas do bairro, enraizada nos pescadores e com ligações documentadas ao universo dos cristãos-novos.
No Largo de Santo Estêvão, um chafariz do século XVIII combinou, num espaço mínimo, o abastecimento de água e a protecção espiritual de quem a bebia. A cúpula com a pomba do Espírito Santo, a Virgem do Carmo sobre a bica e as almas do Purgatório na base compunham um retábulo de rua: quem vinha buscar água parava, via as almas e rezava. Uma função apotropaica integrada no ritmo quotidiano do bairro.
Na Calçadinha de São Miguel e no Largo das Alcaçarias, o percurso encontrou painéis de encomenda mais elaborada — composições mitológicas com Acteon e Diana, Perseu e Andrómeda — que terão migrado, como era prática corrente na Lisboa pombalina, de palácios destruídos em 1755. No Beco do Maquinez, um painel polícromo com a lenda de Nossa Senhora da Nazaré e o milagre do veado encerrou o percurso com uma história de origem medieval que mistura hagiografia, incerteza documental e devoção marítima.
O que o percurso demonstrou, paragem a paragem, é a tese central do projecto: o azulejo de Alfama não é apenas ornamento. É um arquivo devocional, histórico e comunitário instalado nas fachadas à altura dos olhos, à espera de ser lido. O projecto AzulejoLx propõe exactamente isso — tornar acessível, narrativo e partilhável aquilo que existe mas que o excesso de familiaridade tornou invisível. Já assinou a https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=Azulejos ?
