Museu Urbano na Rua: a memória de Lisboa está espalhada pelas nossas ruas... e pode desaparecer sem deixar rasto
Um banco de jardim dos anos 1960 na Avenida da Igreja. Uma caixa de ferro fundido da Carris, escondida junto a uma linha de elétrico. Um pedaço de calçada basáltica que talvez tenha quase dois séculos. São objetos que passamos ao lado todos os dias, sem lhes prestar atenção... e que, precisamente por isso, correm o risco de desaparecer sem que ninguém dê por isso.
A Vizinhos em Lisboa lança o "Museu Urbano na Rua" (nome de trabalho: MuseuUrbanoLx), um projeto para identificar, mapear e ajudar a preservar o mobiliário urbano histórico da cidade: bancos, abrigos, sinalização, iluminação e outros pequenos equipamentos do espaço público que, pela idade ou raridade, contam a evolução recente de Lisboa e que hoje não constam de nenhum inventário público conhecido.
Este projeto dá corpo a uma das prioridades já assumidas pela associação no Programa de Ação 2026-2030: a defesa do património histórico e cultural do dia a dia, o que fica para além dos monumentos classificados. Como o próprio programa assinala, Lisboa tem vindo a perder, de forma silenciosa, elementos patrimoniais que vão de azulejos históricos a chafarizes, marcos de correio ou pormenores de arquitetura urbana.
Como vai funcionar
O projeto avança em três fases:
Mapear. Um mapa colaborativo, aberto a qualquer morador, onde cada um pode assinalar a localização, uma fotografia e uma pequena nota histórica sobre elementos que encontre pela cidade:
Preservar. Com base no mapa, a associação vai propor à Câmara Municipal de Lisboa e às Juntas de Freguesia respetivas a inclusão dos elementos mais relevantes no inventário municipal do património ou, pelo menos, um compromisso simples de manutenção e não remoção.
Sinalizar. Onde a Câmara e a Junta o autorizarem, colocação de pequenos códigos QR junto aos objetos, que remetam para uma ficha com a sua história.
Um primeiro conjunto de exemplos, para lançar o mapa https://www.google.com/maps/d/u/0/edit?mid=1edlalvC_kMPEVUyStPtMLlPkGNVF9kM&usp=sharing
Estes exemplos resultam de trabalho de campo feito em Alvalade e no Areeiro e servem de ponto de partida. Vale a pena sublinhar: não há, tanto quanto conseguimos apurar, nenhum inventário público sobre este tipo de objetos, pelo que alguns dados (sobretudo datas e afirmações de que um exemplar é "o último") são uma primeira identificação a confirmar, não um facto estabelecido.
Bancos dos anos 1960 na Avenida da Igreja, entre Alvalade e Areeiro, recentemente restaurados por um grupo de escuteiros em conjunto com a Junta de Freguesia de Alvalade.
Um abrigo da Carris dos anos 1960 na Rua Nelson de Barros, em Penha de França... que poderá ser o único exemplar deste modelo ainda de pé na cidade, embora isso esteja por confirmar.
Um "pimenteiro" no cruzamento da Avenida do Brasil com a Avenida dos Estados Unidos da América, possivelmente o último da cidade.
Um semáforo antigo dedicado aos bombeiros, na Avenida da Igreja, com um par idêntico na Avenida do Brasil.
Sinais luminosos de passagem proibida no Bairro dos Actores (Rua Actriz Virgínia), no Areeiro.
Minipimenteiros ao nível do solo, na Avenida de Roma.
Um troço de calçada basáltica junto à antiga Estação de Chelas / Palhavã Velha, que poderá remontar à primeira metade do século XIX.
Uma boca-de-incêndio antiga, em ferro fundido, com a marca da fundição de Albergaria-a-Velha, na Avenida de Roma junto ao ginásio Supera... provavelmente das décadas de 1930 a 1950.
Caixas metálicas de ferro fundido da Carris, antigas caixas de comando da rede elétrica dos elétricos, como as que se mantêm junto ao Jardim do Tabaco, talvez das primeiras décadas do século XX.
E a proteção legal, como funciona hoje?
O PDM de Lisboa já classifica alguns "objetos singulares", como chafarizes e estatuária, e há regulamentos municipais que protegem o mobiliário urbano em alguns bairros históricos ou sob concessão da Câmara. Mas nenhum destes instrumentos cobre, hoje, de forma direta, este tipo de mobiliário do quotidiano. Por isso, a segunda fase do projeto passa por diálogo com a Câmara e com as Juntas, pedido a pedido, e não por uma proteção automática.
Como pode ajudar
A parte mais importante deste projeto começa com quem vive e caminha pela cidade. Se conhece um banco antigo, um candeeiro, uma placa ou qualquer outro elemento que lhe pareça ter história... tire uma fotografia, note a localização e envie para geral@vizinhos.org. O mapa colaborativo começou a ser construído e está já disponível em https://www.google.com/maps/d/u/0/edit?mid=1edlalvC_kMPEVUyStPtMLlPkGNVF9kM&usp=sharing