Lisboa não é um concelho florestal, mas sim uma cidade densamente urbanizada onde a arborização urbana — embora limitada e distribuída de forma desigual entre freguesias — constitui uma infraestrutura ambiental crítica para mitigação climática, saúde pública e equidade territorial, justificando a criação de um plano municipal de reequilíbrio da plantação de árvores com base em critérios técnicos objetivos.
A leitura integrada destes números conduz a três conclusões:
Inventário arbóreo municipal e os dados de freguesias dos Censos 2021
Rácio de árvores por habitantes das freguesias de Lisboa
Densidade de árvores por km² estimando a área de cada freguesia a partir da densidade populacional:
Introdução
A discussão pública sobre árvores em Lisboa tende a oscilar entre percepções subjetivas e anúncios avulsos de plantações, mas raramente parte de dados consolidados e comparáveis. O presente trabalho baseia-se no inventário arbóreo municipal disponibilizado em dados abertos pela Câmara Municipal de Lisboa, que contabiliza 76.677 registos a 28 de fevereiro de 2026, cruzado com informação internacional da plataforma Global Forest Watch, permitindo enquadrar a realidade da capital num contexto metodologicamente verificável.
O objetivo não é produzir retórica ambiental, mas medir com rigor o que Lisboa efetivamente tem, o que perdeu, o que ganhou e como essa infraestrutura verde está distribuída no território. Num concelho essencialmente urbano e densamente consolidado, onde a floresta no sentido clássico é residual, a arborização assume natureza estratégica e deve ser tratada como infraestrutura crítica de adaptação climática, em linha com a Lei n.º 98/2021, Lei de Bases do Clima, e com as competências ambientais municipais previstas na Lei n.º 75/2013.
A partir desta base factual, analisam-se três dimensões essenciais: evolução da cobertura arbórea nas últimas duas décadas, função climática enquanto sumidouro de carbono e desigualdade territorial na distribuição de árvores por freguesia. Só com esta leitura integrada é possível passar da intenção política à gestão técnica fundamentada.
Lisboa Não É um Concelho Florestal: Base Arbórea Residual, Ganhos Moderados e Função Climática Urbana Mensurável
A partir dos dados abertos da CML acessíveis em:https://dados.cm-lisboa.pt/dataset/arvoredo que contabilizam um total de 76677 a 28.02.2026 e de dados extraídos na mesma data em https://www.globalforestwatch.org os Vizinhos em Lisboa realizaram esta análise:
Em 2020, apenas 0,42 por cento da cobertura do solo do concelho era classificada como floresta natural (ou seja: o Parque Florestal de Monsanto), o que corresponde a 36 hectares, enquanto 0,99 por cento era classificada como cobertura arbórea não natural, equivalente a 84 hectares. O restante território, cerca de 8,4 mil hectares, enquadra-se noutras classes de uso do solo. Isto confirma que Lisboa é essencialmente um território urbano consolidado, onde a “floresta” no sentido clássico é residual e a arborização assume sobretudo a forma de infraestrutura verde urbana e não de maciço florestal contínuo.
Em 2000, cerca de 8,0 por cento da superfície terrestre do concelho apresentava cobertura arbórea com densidade de copa superior a 30 por cento, correspondendo a aproximadamente 700 hectares. A diferença metodológica entre a cartografia usada pela www.globalforestwatch.org de 2000 e a de 2020 impede comparações diretas, sobretudo porque os critérios de densidade de copa e de classificação florestal foram alterados ao longo do tempo, em especial após 2015. Ainda assim, os números indicam que a componente arbórea com função ecológica relevante é limitada face à área total do concelho.
Entre 2001 e 2024, Lisboa perdeu 27 hectares de cobertura arbórea, o que equivale a uma redução de 4,0 por cento face à área de 2000. A maior parte dessa perda, cerca de 79 por cento, ocorreu em áreas onde o fator dominante foi o desmatamento associado a assentamentos e infraestruturas, num total de 21 hectares, enquanto 6 hectares foram atribuídos a fatores de perturbação temporária mas indefinida. Em termos absolutos, Lisboa surge muito abaixo de municípios periurbanos como Sobral de Monte Agraço ou Arruda dos Vinhos, o que é coerente com a sua reduzida base florestal inicial.
No período de 2021 a 2024, menos de 1 hectare de floresta natural foi perdido dentro dessa categoria, correspondendo a cerca de 210 toneladas de emissões de CO₂ equivalente. O valor é pequeno, mas demonstra que mesmo áreas naturais residuais estão sujeitas a pressão.
No lado positivo, entre 2000 e 2020 Lisboa registou um ganho de 50 hectares de cobertura arbórea, dos quais 97 por cento ocorreram fora de plantações, o que indica regeneração ou arborização com características não industriais. O ganho líquido no período 2000–2020 foi de 39 hectares, equivalente a cerca de 4 por cento da área inicial com cobertura arbórea relevante. Este saldo resulta de 50 hectares de ganho, 11 hectares de perda direta e 28 hectares de perturbação. Do ponto de vista climático, as florestas de Lisboa funcionam como sumidouro líquido de carbono.
O stock total de carbono no concelho é estimado em 84 quilotoneladas, distribuídas entre 38 quilotoneladas em biomassa acima do solo, 14 quilotoneladas abaixo do solo e 32 quilotoneladas no carbono orgânico do solo. Em 2000, a densidade média de biomassa lenhosa viva acima do solo era de 110 toneladas por hectare, totalizando cerca de 80 quilotoneladas. O carbono orgânico do solo apresentava densidade média de 46 toneladas por hectare, com armazenamento total de 32 quilotoneladas.
Há, contudo, um dado que exige cautela interpretativa. A indicação de que em 2020 Lisboa teria 0,0 hectares com cobertura arbórea superior a 10 por cento é manifestamente incompatível com a realidade física do concelho, que inclui Monsanto, Tapada da Ajuda, Tapada das Necessidades e numerosos parques urbanos. Este resultado resulta claramente de limitações ou inconsistências metodológicas na base de dados selecionada e não pode ser lido como descrição fiel do território.
A leitura integrada destes números conduz a três conclusões:
1) Lisboa não é um concelho florestal no sentido convencional, mas sim um território urbano onde a arborização desempenha função ecológica crítica e concentrada.
2) As perdas registadas são relativamente reduzidas em termos absolutos, mas estão associadas sobretudo à pressão urbanística e infraestrutural, o que reforça a necessidade de integrar critérios de compensação arbórea e avaliação ambiental estratégica nos termos do regime jurídico da urbanização e edificação.
3) O saldo líquido positivo e o papel como sumidouro de carbono demonstram que a política de arborização urbana tem impacto real e mensurável no cumprimento das metas de adaptação e mitigação climática.
Em síntese, Lisboa apresenta base florestal reduzida, ganhos líquidos modestos mas positivos nas últimas duas décadas, e uma função climática urbana relevante. O desafio não é gerir uma floresta extensa, mas consolidar e expandir uma infraestrutura verde urbana resiliente, distribuída de forma equitativa no território e protegida de pressões de artificialização futura.
Inventário arbóreo municipal e os dados de freguesias dos Censos 2021
Usando a plataforma de dados abertos da CML fizemos o cruzamento entre o inventário arbóreo municipal e os dados dos Censos 2021 o que permitiu extrair conclusões objetivas sobre desigualdade territorial na distribuição de árvores em Lisboa.
Rácio de árvores por habitantes das freguesias de Lisboa
A freguesia com melhor rácio de árvores por habitante é o Parque das Nações, com 0,384 árvores por habitante, o que equivale a uma árvore por cada 2,6 residentes. Seguem-se Avenidas Novas com 0,256 árvores por habitante e Belém com 0,254 árvores por habitante. Tratam-se de territórios com urbanismo planeado, avenidas largas ou grande presença de espaços verdes estruturados.
Num patamar intermédio surgem Santo António, Carnide, Estrela e Alcântara, todas com valores entre 0,17 e 0,21 árvores por habitante.
No extremo oposto encontram-se as freguesias com menor cobertura relativa. Beato apresenta 0,056 árvores por habitante, o que corresponde a uma árvore por cada 17,5 residentes. Campo de Ourique apresenta 0,059 árvores por habitante, São Vicente 0,066 e Arroios 0,087. Estas freguesias combinam elevada densidade urbana com menor disponibilidade de solo público arborizável.
Quando se cruza este indicador com a densidade populacional, o padrão torna-se claro. Arroios, com 15.637 hab. por km², apresenta apenas uma árvore por cada 11,4 habitantes. Campo de Ourique, com 13.406 hab. por km², apresenta uma árvore por cada 16,9 habitantes. Penha de França, com 10.507 hab. por km², apresenta uma árvore por cada 11 habitantes.
Em contraste, Belém, com densidade muito baixa de 1.586 hab. por km², apresenta uma árvore por cada 3,9 habitantes. Parque das Nações, com densidade intermédia de 4.114 hab. por km², apresenta a melhor relação absoluta.
O Lumiar, apesar de ser a freguesia mais populosa, apresenta apenas 0,113 árvores por habitante, ou seja, uma árvore por cada 8,8 residentes, valor abaixo da média das freguesias com perfil mais recente.
Do ponto de vista de política pública municipal, isto significa que as freguesias mais densamente povoadas são precisamente aquelas onde a pressão térmica urbana é maior e onde o rácio árvore por habitante é mais desfavorável. À luz da Lei de Bases do Clima, Lei n.º 98/2021, e das competências municipais previstas na Lei n.º 75/2013, existe fundamento técnico para priorizar reforço de arborização nas freguesias centrais densas como Arroios, Campo de Ourique, São Vicente e Penha de França.
Densidade de árvores por km² estimando a área de cada freguesia a partir da densidade populacional:
O cálculo da densidade de árvores por km², estimando a área a partir da população e da densidade oficial dos Censos 2021, confirma um padrão territorial claro de assimetria ambiental no município de Lisboa.
A freguesia com maior densidade arbórea é Avenidas Novas, com cerca de 1.856 árvores por km², seguida de Santo António com 1.597 árvores por km² e Parque das Nações com 1.580 árvores por km². Trata-se de territórios com estrutura viária larga, avenidas arborizadas e planeamento urbano consolidado.
Arroios, apesar de ser a freguesia mais densamente povoada da cidade, apresenta ainda assim 1.366 árvores por km², valor elevado em termos territoriais, mas que se dilui quando analisado per capita, dado o elevado número de residentes. O mesmo sucede com Areeiro e Penha de França.
Num patamar intermédio situam-se Alvalade, Carnide, Lumiar e Campo de Ourique, com valores entre 790 e 905 árvores por km².
No extremo inferior da tabela surgem Beato com apenas 279 árvores por km², Olivais com 358, Belém com 403 e Santa Maria Maior com 446. No caso de Belém e Olivais, a baixa densidade arbórea por km² resulta sobretudo da grande extensão territorial e da presença de áreas não urbanizadas ou infraestruturas extensivas.
Quando se cruzam os dois indicadores - árvores por habitante e árvores por km² - emergem três realidades distintas.
1: freguesias com boa performance nos dois indicadores, como Parque das Nações e Avenidas Novas, que combinam planeamento urbano moderno com cobertura arbórea significativa.
2: freguesias com elevada densidade territorial de árvores mas fraca relação per capita, como Arroios e Campo de Ourique, onde a pressão demográfica reduz o benefício individual.
3: freguesias estruturalmente deficitárias, como Beato e São Vicente, que apresentam simultaneamente baixa densidade por km² e mau rácio por habitante.
Do ponto de vista de política pública municipal, esta análise sustenta a necessidade de critérios objetivos de redistribuição do investimento em arborização urbana. A priorização deveria incidir nas freguesias com maior densidade populacional e menor rácio de árvores por habitante, por razões de equidade territorial e mitigação de ilhas de calor urbano.
O índice composto de vulnerabilidade arbórea, construído a partir da combinação de três fatores (densidade populacional, árvores por habitante e árvores por km²) que permite hierarquizar de forma objetiva as prioridades de intervenção municipal
A freguesia mais vulnerável é Campo de Ourique, com o valor mais elevado do índice. Combina densidade populacional muito elevada, fraca relação árvore por habitante e densidade territorial intermédia. Segue-se São Vicente, igualmente com elevada pressão demográfica e fraca cobertura relativa. Em terceiro surge o Beato, que apresenta simultaneamente baixa densidade arbórea territorial e o pior rácio árvore por habitante.
Arroios surge também num patamar crítico. Embora tenha uma densidade territorial de árvores relativamente elevada, a densidade populacional extrema dilui o benefício ambiental individual, o que a coloca entre as freguesias estruturalmente vulneráveis.
Penha de França e São Domingos de Benfica aparecem igualmente com níveis elevados de vulnerabilidade, sobretudo pela combinação de densidade populacional relevante e cobertura arbórea insuficiente face à população.
Num patamar intermédio situam-se Olivais, Areeiro, Misericórdia, Santa Clara e Lumiar. No caso dos Olivais, a grande área territorial dilui a densidade de árvores por km². No Lumiar, apesar do número absoluto elevado de árvores, a grande população reduz o rácio per capita.
As freguesias menos vulneráveis são Parque das Nações, Avenidas Novas e Santo António. O Parque das Nações apresenta o melhor desempenho global, com elevada cobertura por habitante e boa densidade territorial. Avenidas Novas apresenta a maior densidade de árvores por km² do município.
Do ponto de vista de política pública, esta hierarquização fornece uma base técnica para definir prioridades de plantação e reforço arbóreo, em especial nas freguesias centrais densas, onde a mitigação de ilhas de calor urbano, que se traduzem na necessidade de aumentar as zonas verdes e de sombra. Não se trata apenas de um reequilíbrio, mas de um aumento real, para fazer face às necessidades presentes e futuras do aumento de temperatura nas cidades. Esta hierarquização tem maior impacto social e sanitário.
Espécies de Árvores
Nos Dados Abertos da CML encontramos 76.677 registos de árvores.
Há 9.704 registos como “Não identificada” e há 129 registos como “Em atualização”, pelo que existem 9.833 registos sem espécie fechada e 66.844 com espécie preenchida.
As espécies mais frequentes no ficheiro são Celtis australis com 9.729, Jacaranda mimosifolia com 3.998, Platanus x hybrida com 2.518, Cupressus sempervirens com 2.166, Cercis siliquastrum com 1.868, Tipuana tipu com 1.787, Pinus pinea com 1.624, Platanus sp. com 1.470, Fraxinus angustifolia com 1.444, Acer negundo com 1.416, Acer pseudoplatanus com 1.382, Melia azedarach com 1.302, Tilia sp. com 1.157, Prunus cerasifera subsp. pissardii com 1.151, Tilia cordata com 1.127, Tilia platyphyllos com 1.013, Populus nigra com 1.010, Grevillea robusta com 979, Ginkgo biloba com 966, Pyrus calleryana var. Chanticleer com 959, Cupressus sp. com 925, Olea europaea com 913, Gleditsia triacanthos com 902, Populus x canadensis com 843, Liquidambar styraciflua com 830, Styphnolobium japonicum com 743, Ligustrum lucidum com 740, Koelreuteria paniculata com 723 e Populus alba com 718.
Dentro do conjunto de espécies que aparecem no texto que colou, as contagens nos Dados Abertos são Prunus cerasifera subsp. pissardii com 1.151, Phytolacca dioica com 50, Pinus halepensis com 172, Catalpa bignonioides com 375, Brachychiton populneus com 482, Celtis occidentalis com 396, Eriobotrya japonica com 179, Cupressus lusitanica com 223, Myoporum acuminatum com 61, Prunus dulcis com 275, Ceratonia siliqua com 250, Ceiba speciosa com 126, Casuarina equisetifolia com 524, Tilia argentea com 496, Tilia tomentosa com 460, Lagerstroemia indica com 220, Aesculus hippocastanum com 408, Magnolia grandiflora com 110, Ficus elastica com 68 e Ulmus procera com 27.
Quanto à adequação ao ambiente urbano, a avaliação prática em Lisboa depende sobretudo de tolerância a calor e seca, resistência à compactação do solo e poluição, comportamento radicular em passeios e caldeiras, risco de pragas e doenças, e impactos de sujidade e alergénios.
Em geral, as espécies mais adaptáveis para rua e espaços públicos, quando bem dimensionadas e com caldeiras adequadas, tendem a ser Celtis australis, Gleditsia triacanthos, Koelreuteria paniculata, Styphnolobium japonicum, muitas Tilia em contexto de avenida com solo suficiente, e também Jacaranda mimosifolia onde existe volume de solo e se aceita a queda sazonal de flor e folhagem. Estas espécies costumam comportar-se melhor em termos de stress urbano, desde que a gestão de rega, podas e espaço radicular seja coerente.
As mais problemáticas em ambiente urbano denso, sobretudo em passeios estreitos e com pouco solo, tendem a ser Populus nigra, Populus x canadensis e Populus alba por vigor, raízes agressivas e fragilidade estrutural com vento, Cupressus e outras coníferas quando colocadas em alinhamentos onde o impacto de pólen e a forma de copa criam conflitos com fachadas e iluminação, e Pinus pinea e Pinus halepensis em áreas urbanas intensivas por risco de pragas específicas, queda de resíduos e exigência de espaço, sendo mais adequados a parques e grandes maciços do que a arruamento estreito.
Acer negundo é frequentemente considerado pouco desejável em arborização urbana contemporânea por ser frágil, com madeira quebradiça, e por ter mau desempenho em alguns contextos, além de poder comportar-se de forma oportunista fora de plantação, pelo que tende a ser menos recomendado quando há alternativas mais robustas.
Tipuana tipu dá boa sombra mas é uma árvore de grande porte e com conflitos recorrentes quando o espaço de solo é insuficiente, porque pode levantar pavimentos e criar custos de manutenção altos, pelo que é adequada apenas quando há dimensão de canteiro e recuo compatíveis.
Melia azedarach e Ligustrum lucidum levantam reservas em algumas cidades por efeitos de frutos, sujidade e potencial de dispersão, sendo aceitáveis em certas ruas e jardins mas menos “limpas” e menos previsíveis do que soluções mais estáveis.
Phytolacca dioica e Ceiba speciosa, pelo porte e características, são tipicamente escolhas de jardim e espaço amplo, e não de rua estreita, porque exigem espaço e podem criar conflitos físicos e de manutenção, sendo Ceiba ainda penalizada por espinhos em certos exemplares.
Avaliação por freguesia, indicando que espécies dominam em cada uma e onde há sinais de excesso de monocultura, porque a concentração numa ou duas espécies aumenta risco sistémico quando surgem pragas, doenças ou eventos climáticos extremos.
Cruzando a coluna “Freguesia” com a coluna “Espécie” no CSV extraído da plataforma, excluindo “Não identificada” e “Em atualização” apenas para medir dominância e diversidade, e mantendo estes registos para quantificar a percentagem de espécies por consolidar em cada freguesia. Considerando, depois, como “sinal de monocultura” quando a espécie líder ultrapassa cerca de 30 por cento das espécies identificadas, ou quando as três primeiras se aproximam de 55 a 60 por cento, ou quando o índice de concentração HHI sobe para valores próximos de 0,18 e acima, porque isso aumenta risco sistémico perante pragas, doenças e stress climático.
O caso mais crítico é a Estrela, onde Cupressus sempervirens domina de forma desproporcional, com 40,9 por cento das espécies identificadas e 58,5 por cento concentradas nas três primeiras, o que é um padrão típico de alinhamentos muito homogéneos e portanto mais vulneráveis a choques específicos. Alcântara e Campo de Ourique também exibem concentração relevante na espécie líder, com Celtis australis a representar 33,2 por cento e 31,1 por cento das espécies identificadas, respetivamente, e em Alcântara há ainda um problema adicional de qualidade de dados, porque 37,8 por cento dos registos estão sem espécie consolidada, o que fragiliza qualquer planeamento fino por espécie.
Estrela tem 3.654 árvores no inventário, com 7,6 por cento sem espécie consolidada, e 135 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Cupressus sempervirens com 1.379 e 40,9 por cento das identificadas, Celtis australis com 359 e 10,6 por cento, e Jacaranda mimosifolia com 238 e 7,1 por cento, e as três primeiras somam 58,5 por cento, com HHI 0,188.
Alcântara tem 2.429 árvores no inventário, com 37,8 por cento sem espécie consolidada, e 87 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 501 e 33,2 por cento das identificadas, Casuarina equisetifolia com 93 e 6,2 por cento, e Pyrus calleryana var. Chanticleer com 73 e 4,8 por cento, e as três primeiras somam 44,2 por cento, com HHI 0,126.
Campo de Ourique tem 1.312 árvores no inventário, com 10,0 por cento sem espécie consolidada, e 88 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 367 e 31,1 por cento das identificadas, Platanus x hybrida com 83 e 7,0 por cento, e Pyrus calleryana var. Chanticleer com 80 e 6,8 por cento, e as três primeiras somam 44,9 por cento, com HHI 0,117.
Santo António tem 2.382 árvores no inventário, com 4,1 por cento sem espécie consolidada, e 82 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 552 e 24,2 por cento das identificadas, Platanus x hybrida com 485 e 21,2 por cento, e Jacaranda mimosifolia com 113 e 4,9 por cento, e as três primeiras somam 50,3 por cento, com HHI 0,117.
Arroios tem 2.887 árvores no inventário, com 4,5 por cento sem espécie consolidada, e 127 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 781 e 28,3 por cento das identificadas, Tilia cordata com 159 e 5,8 por cento, e Pyrus calleryana var. Chanticleer com 103 e 3,7 por cento, e as três primeiras somam 37,8 por cento, com HHI 0,096.
Misericórdia tem 1.041 árvores no inventário, com 9,7 por cento sem espécie consolidada, e 73 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 188 e 20,0 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 134 e 14,3 por cento, e Ulmus x resista var. Sapporo Gold com 108 e 11,5 por cento, e as três primeiras somam 45,7 por cento, com HHI 0,086.
São Vicente tem 915 árvores no inventário, com 7,3 por cento sem espécie consolidada, e 95 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 219 e 25,8 por cento das identificadas, Pinus pinea com 32 e 3,8 por cento, e Casuarina cunninghamiana com 32 e 3,8 por cento, e as três primeiras somam 33,4 por cento, com HHI 0,081.
Santa Clara tem 2.645 árvores no inventário, com 2,6 por cento sem espécie consolidada, e 118 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Cupressus sp. com 490 e 19,0 por cento das identificadas, Celtis australis com 304 e 11,8 por cento, e Acer pseudoplatanus com 251 e 9,7 por cento, e as três primeiras somam 40,6 por cento, com HHI 0,070.
Avenidas Novas tem 5.966 árvores no inventário, com 4,0 por cento sem espécie consolidada, e 158 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 1.023 e 17,9 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 757 e 13,2 por cento, e Platanus sp. com 463 e 8,1 por cento, e as três primeiras somam 39,2 por cento, com HHI 0,064.
Parque das Nações tem 8.583 árvores no inventário, com 8,5 por cento sem espécie consolidada, e 139 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 1.392 e 17,7 por cento das identificadas, Platanus x hybrida com 813 e 10,3 por cento, e Pinus pinea com 600 e 7,6 por cento, e as três primeiras somam 35,7 por cento, com HHI 0,062.
Ajuda tem 2.017 árvores no inventário, com 13,3 por cento sem espécie consolidada, e 90 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 263 e 15,0 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 227 e 13,0 por cento, e Platanus x hybrida com 147 e 8,4 por cento, e as três primeiras somam 36,4 por cento, com HHI 0,064.
Belém tem 4.200 árvores no inventário, com 3,1 por cento sem espécie consolidada, e 124 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Jacaranda mimosifolia com 681 e 16,7 por cento das identificadas, Celtis australis com 469 e 11,5 por cento, e Platanus x hybrida com 220 e 5,4 por cento, e as três primeiras somam 33,6 por cento, com HHI 0,058.
Benfica tem 5.766 árvores no inventário, com 5,6 por cento sem espécie consolidada, e 158 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 1.114 e 20,4 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 421 e 7,7 por cento, e Platanus x hybrida com 386 e 7,1 por cento, e as três primeiras somam 35,2 por cento, com HHI 0,061.
Carnide tem 3.267 árvores no inventário, com 4,7 por cento sem espécie consolidada, e 138 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 679 e 21,8 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 251 e 8,0 por cento, e Platanus x hybrida com 238 e 7,6 por cento, e as três primeiras somam 37,4 por cento, com HHI 0,065.
Campolide tem 1.893 árvores no inventário, com 5,4 por cento sem espécie consolidada, e 120 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 352 e 19,6 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 171 e 9,5 por cento, e Platanus x hybrida com 112 e 6,2 por cento, e as três primeiras somam 35,3 por cento, com HHI 0,062.
Lumiar tem 5.250 árvores no inventário, com 4,9 por cento sem espécie consolidada, e 184 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 746 e 14,9 por cento das identificadas, Pinus pinea com 414 e 8,3 por cento, e Platanus x hybrida com 396 e 7,9 por cento, e as três primeiras somam 31,1 por cento, com HHI 0,050.
Marvila tem 4.751 árvores no inventário, com 9,4 por cento sem espécie consolidada, e 171 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 685 e 15,9 por cento das identificadas, Pinus pinea com 415 e 9,6 por cento, e Platanus x hybrida com 317 e 7,4 por cento, e as três primeiras somam 32,9 por cento, com HHI 0,053.
Olivais tem 2.888 árvores no inventário, com 2,8 por cento sem espécie consolidada, e 154 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 418 e 14,9 por cento das identificadas, Platanus x hybrida com 309 e 11,0 por cento, e Jacaranda mimosifolia com 208 e 7,4 por cento, e as três primeiras somam 33,3 por cento, com HHI 0,055.
Penha de França tem 2.564 árvores no inventário, com 5,0 por cento sem espécie consolidada, e 150 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 487 e 20,0 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 246 e 10,1 por cento, e Platanus x hybrida com 171 e 7,0 por cento, e as três primeiras somam 37,1 por cento, com HHI 0,067.
São Domingos de Benfica tem 3.164 árvores no inventário, com 6,2 por cento sem espécie consolidada, e 153 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 588 e 19,8 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 269 e 9,1 por cento, e Platanus x hybrida com 201 e 6,8 por cento, e as três primeiras somam 35,7 por cento, com HHI 0,061.
Santa Maria Maior tem 1.336 árvores no inventário, com 12,5 por cento sem espécie consolidada, e 95 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 210 e 17,9 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 122 e 10,4 por cento, e Platanus x hybrida com 89 e 7,6 por cento, e as três primeiras somam 35,9 por cento, com HHI 0,064.
Beato tem 693 árvores no inventário, com 9,1 por cento sem espécie consolidada, e 103 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 105 e 16,7 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 54 e 8,6 por cento, e Platanus x hybrida com 38 e 6,0 por cento, e as três primeiras somam 31,3 por cento, com HHI 0,051.
Areeiro tem 2.247 árvores no inventário, com 4,3 por cento sem espécie consolidada, e 146 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 354 e 16,5 por cento das identificadas, Jacaranda mimosifolia com 262 e 12,2 por cento, e Platanus x hybrida com 147 e 6,9 por cento, e as três primeiras somam 35,6 por cento, com HHI 0,060.
Alvalade tem 4.827 árvores no inventário, com 4,6 por cento sem espécie consolidada, e 186 espécies identificadas. As três espécies dominantes são Celtis australis com 598 e 13,0 por cento das identificadas, Platanus x hybrida com 442 e 9,6 por cento, e Jacaranda mimosifolia com 421 e 9,2 por cento, e as três primeiras somam 31,8 por cento, com HHI 0,049.
Em termos de risco sistémico por concentração, a prioridade de diversificação por espécie é mais evidente na Estrela, e em segundo plano em Alcântara e Campo de Ourique, e também em Santo António pela elevada concentração nas duas primeiras espécies. Em termos de qualidade de dados para suportar decisões, Alcântara destaca-se negativamente pela percentagem muito elevada de registos sem espécie consolidada, o que deve ser corrigido antes de se desenhar um plano local de substituições e novas plantações orientado por resiliência.
Mensagem enviada à CML a 2026.03.11: Assunto: Necessidade de Plano de Reequilíbrio Territorial da Arborização Urbana no Município de Lisboa
Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,
Na sequência da análise cruzada entre o inventário arbóreo municipal e os dados oficiais dos Censos 2021 do Instituto Nacional de Estatística, foi elaborado um índice composto de vulnerabilidade arbórea por freguesia, combinando três variáveis objetivas: densidade populacional, árvores por habitante e árvores por km².
Os resultados evidenciam uma desigualdade territorial significativa na distribuição de arvoredo urbano no concelho de Lisboa, com implicações diretas na equidade ambiental, na mitigação das ilhas de calor urbano e na saúde pública.
As freguesias com maior vulnerabilidade identificada são Campo de Ourique, São Vicente, Beato, Arroios e Penha de França. Estas combinam densidade populacional elevada com fraca cobertura arbórea per capita e, em alguns casos, baixa densidade territorial de árvores. Em particular, Campo de Ourique e São Vicente apresentam rácios inferiores a uma árvore por cada 15 habitantes, valor que contrasta com o Parque das Nações, onde existe aproximadamente uma árvore por cada 2,6 residentes.
Esta assimetria territorial não pode ser considerada meramente estatística. Em contexto de agravamento das ondas de calor urbano e aumento da frequência de eventos extremos, a cobertura arbórea constitui infraestrutura verde essencial, com função comprovada de regulação térmica, retenção de carbono, melhoria da qualidade do ar e redução da mortalidade associada ao calor.
Nos termos da Lei n.º 75/2013, que estabelece o regime jurídico das autarquias locais, compete ao município promover a gestão sustentável do espaço público e a proteção ambiental. Adicionalmente, a Lei n.º 98/2021, Lei de Bases do Clima, impõe às entidades públicas a obrigação de integrar medidas de adaptação climática nas políticas territoriais. A arborização urbana é um instrumento direto de cumprimento dessas obrigações legais.
Perante os dados apurados, justifica-se a elaboração de um Plano de Reequilíbrio Territorial da Arborização Urbana, com base em critérios técnicos objetivos, que inclua a definição de metas mínimas de árvores por habitante para cada freguesia, a priorização - de espécies autoctónes - de investimento nas freguesias com maior índice de vulnerabilidade arbórea, a identificação sistemática de oportunidades de plantação em arruamentos, praças e espaços públicos subaproveitados, a articulação com as Juntas de Freguesia assegurando execução territorial eficaz, e a publicitação anual de indicadores de cobertura arbórea por freguesia garantindo transparência administrativa.
Sublinhamos ainda que um dos grandes impactos da mancha verde insuficiente nas cidades, prende-se com os insetos polinizadores, que não conseguem atravessar as cidades, por falta de alimento.
Importa ainda corrigir uma prática administrativa que fragiliza a confiança dos cidadãos e contraria o princípio da boa administração consagrado no Código do Procedimento Administrativo. Têm sido reiteradamente encerradas ocorrências na aplicação municipal “Na Minha Rua” relativas a pedidos de replantação de árvores em caldeiras vazias, sem indicação de data prevista para plantação nem integração dessas situações num plano público de reposição arbórea. O encerramento meramente formal de ocorrências, sem resposta material ao problema identificado, não resolve a carência de arvoredo nem assegura transparência quanto ao planeamento municipal.
Assim, solicita-se que cessem os encerramentos administrativos de pedidos de replantação enquanto não existir calendarização concreta ou enquadramento num plano de plantação publicamente divulgado, permitindo aos munícipes conhecer quando e como será reposta a árvore em falta. A gestão do arvoredo urbano não pode ser tratada como expediente estatístico; trata-se de infraestrutura ambiental crítica, cuja reposição deve ser planeada, executada e comunicada com rigor.
O planeamento urbano do final do século XX demonstrou que é possível integrar arborização estrutural desde a origem, como se verifica no Parque das Nações. O desafio atual consiste em corrigir desequilíbrios históricos nas freguesias consolidadas e mais densas, onde a pressão térmica é maior e a população mais exposta.
Um plano desta natureza não constitui apenas uma política ambiental. Trata-se de uma medida de justiça territorial, saúde pública e cumprimento das obrigações legais municipais em matéria de adaptação climática.
Com os melhores cumprimentos,
Vizinhos em Lisboa
